Quando eu era Headhunter- Os pedidos bizarros feitos por empresas clientes.

por Cristina Bresser


Postado em 03 de Maio de 2017 às 21:53



Atuei por alguns anos como Consultora de Seleção de Executivos, comumente conhecida como “Headhunter” numa das maiores e mais bem reputadas consultorias de seleção de executivos do sul do país. Durante este período, busquei profissionais das mais variadas áreas e ramos de atuação, desde agronegócios passando pela indústria automotiva, até empresas de comunicação, sempre em níveis de gerência sênior até presidência.

Eu era uma das consultoras responsáveis por traçar o perfil junto às empresas clientes, buscar os candidatos que coubessem neste perfil (normalmente trabalhando em outras empresas do segmento, inclusive em concorrentes diretas), entrevistá-los e submetê-los a testes de fluência nas línguas requisitadas, além de testes comportamentais.

Normalmente fazia uma seleção final de três a cinco candidatos e juntamente com os resultados dos testes, montava o relatório e enviava para os “decisionmakers” da empresa contratante. A fase seguinte era de entrevistas dentro da empresa, definição do candidato vencedor, envio de proposta de trabalho e posterior contratação do executivo.

Neste período, poucas vezes tive problemas com os candidatos. Normalmente eram questões relacionadas a inverdades escritas nos currículos, muito fáceis de se detectar por pessoas bem treinadas, como era meu caso. A maioria era relacionada à fluência na língua (e eu desmascarava durante a entrevista por telefone mesmo, pois eu mudava para o inglês e depois para o espanhol no meio da conversa, se fosse necessário- sou fluente em quatro idiomas).

Uma vez teve um sujeito muito cara de pau que colocou no currículo tantas pós-graduações e MBAs que apenas com alguns telefonemas descobri que ele não tinha nem mesmo se formado na universidade (aqui no Brasil conseguir informações sigilosas por telefone é facílimo, um horror!).

Um outro candidato alegou estar fazendo uma pós-graduação numa área bastante atraente na época, numa escola muito conceituada em São Paulo, enquanto trabalhava em Curitiba. Até aí, nada demais, se o curso em questão não fosse presencial,durante três dias da semana. Nem se ele tivesse um jatinho a disposição seria bem-sucedido no “bate e volta”!

Mas quando recordo esta época, o que mais ficou gravado na minha lembrança foram os pedidos inusitados – e bizarros- que recebi de donos de empresas, diretores de recursos humanos e presidentes, em relação ao perfil dos profissionais buscados.

Um dos pedidos que me faz rir até hoje foi de um dono de uma empresa têxtil. Ele queria um Gerente Industrial, pois a companhia estava crescendo muito e ele não teria como continuar a comandar esta área. Na descrição do perfil, além de todas as competências técnicas, este senhor me veio com esta: “¬. Olha, escreve aí também que o candidato tem que ter mais do que 1.70m de altura. ”

¬. Como? Perguntei achando que era brincadeira.

¬. “Sabe o que é, moça? Homens baixinhos são complexados. Até o cargo de supervisor eles vão bem, mas se dá um crachá de gerente para eles, vão querer tirar os recalques em cima dos empregados, viram “mandões” insuportáveis! ”

Numa outra ocasião, um diretor de recursos humanos, no final da reunião, me disse em voz baixa:

¬. Por favor, não selecione nenhum negro para este cargo de Gerente Financeiro.

Eu atônita perguntei por que. Ele então me confidenciou, numa voz mais baixa ainda, que na empresa nunca haviam contratado um negro para um cargo de gestão e este não seria o primeiro. Sério?! Me recuei a tocar esse projeto.

Pedidos para excluir mulheres do processo eram normais e me deixavam muito irritada. Uma vez, recebi a instrução categórica do presidente de uma empresa de telecomunicação para não contratar uma mulher muito bonita ou muito jovem para o cargo de Gerente de Marketing, pois ele não queria correr o risco de enfrentar um processo por assédio sexual. Este projeto eu só não me recusei a levar adiante porque meu chefe não me deu opção.

Já recebi pedidos relacionados à idade, claro, a maioria das empresas optam por contratar profissionais para cargos de gestão entre os 35-40 anos. Outras vezes, candidatos obesos foram preteridos pelo fato de custarem mais caro à empresa por terem tendência aoabsenteísmo por problemas de saúde causados pela obesidade (um argumento válido) ou por serem menos ágeis que seus pares (discutível, enfim...).

A única coisa que nunca me pediram foi para excluir gays dos processos. Acho que o medo de serem considerados homofóbicos sempre foi maior que o receio de ter homossexuais trabalhando na companhia. Mesmo porque, eles sempre poderiam preteri-los no final da seleção, se fosse o caso. De qualquer maneira, felizmente a opção sexual do candidato, na maioria das vezes, não fica clara para os contratantes. E no final, o que eles têm a ver com isso, não é mesmo?

Uma outra “saia justa” em que fui colocada, foi um superintendente que me contratou para buscar um diretor comercial para uma empresa de agronegócios.

¬”. Mas não me contrata nenhum espírita, muçulmano, judeu, budista ou algo do gênero pois a empresa é de uma família evangélica e eles são muito religiosos. ”

Quase perguntei a ele se sabia qual era a MINHA religião, mas meu chefe novamente me fez calar apenas com o olhar. Após a saída deste senhor, eu o questionei:

¬. Eu me sinto péssima compactuando com tanto preconceito, respondi. Esses pré-requisitos são passíveis de processo por discriminação se alguém fica sabendo! A resposta dele não foi curta, mas foi bem grossa:

¬. “Eles são clientes, estão pagando e é por isso que VOCÊ assinou um acordo de confidencialidade quando foi contratada para trabalhar aqui. ”

Eu insisti: ¬. Será que eles sabem o quanto é difícil num primeiro contato telefônico perguntar ao candidato: ¬. “Ei, você é baixinho, gordo, negro ou praticante de alguma religião que não seja católica ou evangélica? ”

Meu chefe simplesmente sorriu e disse que eu era bastante criativa, daria um jeito, “como sempre”. Foi este “como sempre” que me fez pedir demissão.

Aí então, eu parti na busca de empregos na área de recursos humanos de algumas indústrias. Adivinhem? Eu sofri preconceito em dois processos seletivos, mesmoeu sendo branca, heterossexual e agnóstica e estar buscando vaga numa área onde a maioria dos profissionais é mulher.

No primeiro processo, tanto eu como a recrutadora tínhamos certeza que eu era a candidata vencedora, após ter ido muito bem na entrevista e ter tirado nota máxima no teste de inglês. Ela era jovem e cometeu o erro de ligar para a pessoa responsável pela vaga enquanto eu estava na sala contigua aguardando os próximos passos. Depois de uma rápida conversa onde eu a ouvi dizer que tinha selecionado a candidata ideal, houve silêncio por alguns momentos e ela falou em voz mais baixa: ¬ “32...” (minha idade na época) e logo em seguida desligou.

Voltou para a sala onde eu me encontrava com o rosto lívido e me disse que em breve entrariam em contato. Assim, acabei descobrindo que a multinacional americana em questão, só contratava candidatos abaixo dos 30 anos. Esta minha impressão foi confirmada anos depois por uma colega que atuou nesta companhia. Ela me disse que eles preferiam profissionais mais jovens, dispostos a “dar o sangue” pela empresa.

Outra vez, eu era a candidata vencedora de um processo longo de entrevistas, quando a Gerente de RH me perguntou se eu sabia a HORA do meu nascimento. Eu respondi que sim e disse que havia nascido as 10h da manhã. Ela ainda questionou: ¬”. Foi parto normal? ” Eu respondi que sim e emendei em tom de gozação: ¬. Por que, vocês vão fazer meu mapa astral?

E ela, constrangida, afirmou que isso era essencial para a presidente daquela indústria cosmética, uma vez que ela acreditava piamente em astrologia e tinha até uma astróloga contratada para traçar o mapa de todos os funcionários a serem contratados! Acho que meu signo não combinou com o dela porque nunca mais me procuraram!

Então, caso você tenha certeza que o seu perfil se encaixa perfeitamente com o cargo em questão e você foi preterido por outro candidato não tão adequado, não pense que há algo errado com você, necessariamente. A maioria das empresas tem uma “agenda oculta”, que não é divulgada justamente por ser politicamente muito incorreta. Este código não-falado, mas bem conhecido pelos gestores da companhia, estipula que “todos os bichos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

Ou seja, se você foi excluído no final de um processo de seleção e tem certeza que a vaga era sua, alegre-se, pois não iria compactuar com escolhas preconceituosas e certamente se sentiria ressentido em trabalhar para pessoas tão reacionárias. Demitir-se logo que descobrisse esta “agenda” seria a consequência óbvia. Então, melhor nem ter sido contratado!


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Cristina Bresser

Consultoria em Carreira e Desenvolvimento Humano.