Oh Boy!

por Cristina Bresser


Postado em 11 de de 2017 às 12:24



Poderia ser só mais um dia na vida de João Ninguém. Ele se levantou com o ringtone do Munhoz & Mariano, tomou um banho frio - o gás estava cortado - passou uma escova no cabelo e sorriu para si mesmo no espelho rachado.

Tô bonito? Perguntou à Maiara.

Sem esperar resposta daqueles lábios curvilíneos, foi até a cozinha.

Requentou café no micro e comeu o resto da pizza do jantar. Saiu atrasado pra encarar o trabalho que garantia a grana da balada, que sempre acabava antes do mês chegar ao fim.

Terminal lotado. Todo dia ia espremido dentro do biarticulado; hoje era entre um homem com bafo de alho e uma velha com cheiro de antes de ontem. Durante o trajeto da periferia ao centro da cidade, sonhava em ganhar na megassena e chutar tudo aquilo pro alto.

Enquanto o sonho não se realizava, nos fins de semana fumava um, comprava bilhete pra Linha Turismo e se sentava no deck do ônibus, fingindo-se turista na cidade de onde nunca havia saído, imaginando-se empresário e dono de conversível. Naquele dia achou que tinha se dado bem quando reparou na gringa que se sentou ao lado dele, se abrindo toda.

Nossa, ela deve ser clone da Maraisa.

Para completar, na parada do Barigui, um mauricinho tinha acabado de sair do carro dos seus sonhos e não percebeu que havia deixado as chaves caírem do bolso.

Deve ser muito otário mesmo pra não se ligar ... Dançou, playboy.

Embalado pela coragem alucinógena e pelo olhar de admiração da gringa, João Ninguém desceu correndo do ônibus, a gostosa a tiracolo, catou as chaves do chão e saíram cantando pneu.

Quando João estava dando o maior gás, um guardinha de moto resolveu interromper o trânsito. Um comboio de motos e viaturas policiais furou o sinal em alta velocidade, fazendo a maior algazarra, brincando de roleta-russa.

João Ninguém viu que não ia conseguir frear a tempo pra não atropelar o malabares no sinal. Diante do espanto da gringa, em cima da hora João deu um cavalo-de-pau e conseguiu desviar o carro pra canaleta do expresso.

Como Deus tem um senso de humor torto, às vezes, assim que João e a gringa suspiraram aliviados, ainda com o carro voando baixo, João berrou:

¬Ai, fudeu. Bateram de frente com o Vila Centenário - Campo Comprido. A última coisa que João Ninguém viu neste mundo foi o airbag do Camaro amarelo explodindo na sua cara.

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Cristina Bresser

Consultoria em Carreira e Desenvolvimento Humano.