Carcinoma de chuva

por Cristina Bresser


Postado em 09 de Abril de 2018 às 17:55



 

Minha pele clara sofre com o excesso de sol. Extraí o primeiro caranguejo agarrado à minha derme quando tinha dezenove anos e a palavra câncer era mais feia do que caralho, escroto, buceta ou punheta. Ninguém quis me contar o resultado da biópsia, ninguém quis comentar sobre aquela ferida que não sarava nunca e virou uma cicatriz longilínea entre as minhas escápulas. Carcinomas são os menos agressivos dos tumores malignos de pele. Só doía quando feições retorcidas pelo desgosto e por tons metálico-aflitos, me questionavam OQUEFOIISSONASSUASCOSTAS?

Cheguei nos trinta e fiz uma tatuagem de cavalo-marinho para cobrir a marca. As expressões de terror foram substituídas por olhares de cobiça dos homens e de inveja da maioria das mulheres. O que era defeito virou acessório de sedução.

Alcancei os quarenta e, com a maturidade, o número de lesões também aumentou. Primeiro, perdi o rabo do cavalo marinho para um basoceluar. A dermatologista me assegurou de que nada adiantaria eu deixar de tomar sol. As lesões são cumulativas, o excesso de sol sem protetor solar na infância e adolescência já tinham deixado seu legado no meu DNA. Era só uma questão de baixa imunidade, e eles apareceriam sem ser convidados.

Consequência tardia do óleo Johnson com urucum, de pouco adiantou a máscara de Caladryl ou o Hipoglós na época que eu surfava com prancha de isopor. A cada cirurgia, me sentia como um doente terminal. Larguei o emprego estável, o salário alto e o chefe psicopata pra abolir a raiva engolida.

Completei cinquenta e a proporção das lesões de pele dobrou com o nível imprevisível de estresse. Há anos não lia o palavrão carcinoma nos laudos. Fui morar numa casa, me poupando de vizinhos invasivos, e pra poder conviver com meus cães. Até que começou a chover.

Casa antiga, reforma longa, fiquei exultante quando estava quase pronta. Os pintores me aconselharam a lavar e impermeabilizar as telhas, já que a morada estava pintada de novo.

O serviço com a wap inaugurou uma cachoeira caudalosa no lustre do quarto. Meudeusdocéu, que medo de curto-circuito. Os pedreiros ainda estavam por perto e garantiram que tinham deixado as instalações elétricas em ordem, não precisava se preocupar. Depois veio o técnico da internet, que jurou não ter quebrado nem uma telha.

O cara que se dizia especialista em alarmes e em cercas elétricas, além de telhas quebradas, deixou um rastro de fios descascados, prontinhos pra transformar em cinzas o meu sonho da casa própria. Mas isso eu só soube muito depois, quando o Carlão chegou. Ele veio pra resolver a questão, depois do jardineiro solícito ter tentado, depois do homem das calhas ter me arrancado uma dinheirama, e a chuva continuar a entrar na lavanderia.

O Carlão veio importado de São Paulo, com técnica moderna de fibra de vidro, de resina e de vedação. Veio bem indicado, claro. Chegou estufando o peito e jogando charme, o que fingi não perceber. Queria que ele resolvesse o problema do telhado, não da minha falta de sexo. Aliás, sexo não estava me fazendo a menor falta, queria apenas ficar bem coberta na minha casa, com os meus livros, as minhas plantas e os meus cães.

Oito meses depois e o dinheiro suficiente para um telhado novo, brotou uma cascata em cima da mesa da sala de jantar. Sem problemas, a mesa é de vidro, nem estragou. Estrago mesmo fizeram as duas quedas d’água menorzinhas que saíam pelas dicroicas instaladas para destacar as cores vibrantes dos painéis abstratos. Sobrou vermelho no chão, nas paredes e no meu rosto, vermelho de raiva. E o Carlão posando de Capitão Rodrigo e culpando o formato do telhado, as telhas velhas, o tempo e o vento.

Cada vez que ouve um trovão, minha cachorra, recém-resgatada das ruas, treme, chora e tenta se entocar. Na última tormenta, fui pra debaixo da escrivaninha junto com ela. Depois que me mudei pra essa casa, passei a ter medo de chuva também. Acordo de madrugada durante o aguaceiro e saio pela casa inspecionando infiltrações e goteiras.

Depois de uma noite tempestuosa nesse verão, acordei com cinco manchas novas na perna esquerda. Cinco. Lesões. De uma vez só. Caralho. Escroto. Buceta. Punheta. Não. Carcinoma.

Na cirurgia, a dermatologista, tantos anos e quantas lesões extraídas depois, aturdida me questionou:

¬ Você tem passado muita raiva?

¬ Muita, doutora. Raiva da chuva.

¬ Chuva dá câncer, sabia? O sorriso da médica não passou dos seus lábios.

PUBLICADO NO JORNAL RELEVO, ABRIL/2018 - https://issuu.com/jornalrelevo/docs/relevo_-_abril_de_2018

Publicado no site da Revista EMA em 18-04-2018 

 


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Cristina Bresser

Consultoria em Carreira e Desenvolvimento Humano.