365 palavras

por Cristina Bresser


Postado em 12 de Abril de 2018 às 19:53



Esta noite eu preciso dormir. To tão cansada. Vou desligar o celular, preciso dormir, apagar. Sede. A arma não dispara. Desmonta na minha mão, frente a frente com o assassino. Ele vai nos matar. Carro em disparada, perseguição, escuro, adrenalina, tenho que salvar minha irmã. Som alto, fechada, olha o canal, não vai dar. O psicopata emparelha o carro, abre a janela, é o fim. A cara dele é a do tio Roberto. Logo o tio Roberto, cuidando da tia no hospital? É uma máscara pra nos enganar. Sede. Acendo a luz, bebo água, na volta do banheiro ligo o celular. Ligação perdida. Perdida pra sempre. Já sabia. Ninguém esperava, mas eu já sabia que ela ia morrer. Não ia se sujeitar a ser vestida, lavada, limpada, mandada. Não. Eu faço. Podexá, eu pego. Quero beber água num copo de verdade, não nessa porcaria de plástico com canudo, não sou criança. Fralda? Ondejáseviu? Eu consigo levantar pra ir ao banheiro, absurdo. E essa droga desse funk idiota na minha cabeça. Cheguei, to preparada pra atacar... na sua cara vou jogar. Linda, livre, leve e solta. Está assim agora. Sem fralda, mas sem sutiã e sem maquiagem. Nunca ia sair de casa sem sutiã, sem maquiagem e sem as joias. Sorteio da funerária, Central de Luto, buscar o corpo, escolher o caixão. As Providências. Velório. Queria ser cremada. Mas vai com este tailleur de linho branco e linhas negras, fininhas, que se cruzam. A sacola cor de rosa da Bianrose ainda bagunça a mesa da sala. Novinho, Coco teria orgulho. Vou chorar. Colar dourado, cadê os brincos? Ah, estão pendurados na gola, achei que fossem broches. E manda fazerem uma maquiagem decente nela, sofisticada, com cor. Já está morta, não vai ficar com cara de defunta, manequim de museu de cera. Nada de flor branca peloamordedeus. Ela era colorida, perua, linda, livre, leve, solta, pronta pra beijar na boca. Nunca mais vai beijar ninguém. Nem na boca, nem no rosto, nem mesmo um beijinho de madame, desses soprados pro ar. Pede flores vermelhas e cor de rosa, vibrantes, cheirosas, nada de flor de defunto, já basta ela estar morta. Morta. Tia Glorinha está morta.

 

Um dos 25 selecionados para a coletânea | UTOPIA/DISTOPIA da revista gueto com lançamento em maio/2018

https://revistagueto.com/2018/05/13/especial-utopia-distopia-fc/

Menção Honrosa no V Concurso Literário Icoense (CLIC) Poeta José de Oliveira Neto http://icozeiro.blogspot.com.br/2018/01/resultado-do-v-concurso-literario.html

 


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Aly

15/08/2018 19:31:52
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Consultoria em Carreira e Desenvolvimento Humano.